Do chamado à sobrevivência: o que dez anos empreendendo no cuidado me ensinaram

2016. Eu estava no ultimo semestre da faculdade, com uma cede enorme para conseguir um emprego na área que mais havia me identificado durante 5 anos, a emergência. O modelo hospitalar convencional não me agradava, via dentro dos sistemas onde estagiava, uma lacuna enorme entre o cuidado que era possível e o cuidado que era oferecido, mas a sobrevivência sempre falou mais alta naquela época.
Foi nesse período que minha colega de faculdade Tatiana me fez um convite que mudou tudo: abrir uma empresa de home care juntas. Ali, pude visualizar uma oportunidade que sempre pulsava em meu coração, dedicar energia ao cuidado que era possível. Então, duas mulheres recém-formadas, sem experiência em gestão, sem capital para investir, sem um mentor, sem um modelo brasileiro que pudesse nos guiar. Só o chamado, e a convicção de que cuidar bem, em casa, com presença e com ética, fazia sentido.
O que veio depois foi dez anos de aprendizado. A maioria dele, doloroso. E é exatamente por isso que vale contar.
Quando o chamado não tem estrutura — e o que acontece
A Humanize Care começou como MEI. Nós duas na linha de frente, cuidando, gerindo, atendendo família, resolvendo problema administrativo, fazendo planilha às onze da noite. A energia era real. O propósito era real. Mas o que não tínhamos, e demorou um tempo para nomear, era estrutura.
Estrutura não é burocracia. Não é perder a alma do cuidado em processos e números. Estrutura é o que permite que o chamado dure. É o que protege quem cuida de adoecer no caminho, de cobrar abaixo do justo, de dizer sim para tudo até não aguentar mais. Sem estrutura, o propósito vira sacrifício, e eu vi isso acontecer, primeiro comigo, depois com dezenas de profissionais que acompanhei ao longo dos anos.
A pesquisa sobre empreendedorismo na enfermagem confirma o que vivi na prática: enfermeiras empreendedoras frequentemente relatam dificuldade em conciliar a motivação prossocial, o desejo genuíno de cuidar, com a necessidade de gestão financeira e sustentabilidade do negócio (Nambinga et al., 2024). O conflito entre propósito e sobrevivência não é fraqueza. É uma armadilha estrutural que o mercado coloca na frente de quem trabalha com cuidado.
Chamado sem estrutura vira sacrifício. E sacrifício, por mais bonito que pareça por fora, não sustenta ninguém por dez anos.
2018: o ano que nomeou tudo
Em 2018, fui convidada para participar da organização da primeira turma de formação de doulas da morte do Brasil, sessenta alunos de mais de sete estados. Um movimento histórico idealizado por duas grandes mulheres, Tatiana e Ana que deram a luz , ao nascimento do Amortser. Eu já acompanhava pacientes em fim de vida na Humanize Care, juntamente da Tatiana. Já atuava como doula sem nomear: presença, ritual, escuta, legado, apoio à família. Uma construção genuína.
Aquela formação me deu o vocabulário que faltava. E com vocabulário vem clareza, sobre o que você faz, sobre o valor do que você entrega, sobre onde você ocupa um espaço que mais ninguém ocupa da mesma forma. A pesquisa sobre doulas da morte descreve exatamente esse movimento: profissionais que nomeiam o próprio papel conseguem posicionar-se com mais segurança, estabelecer limites éticos mais claros e construir relações de confiança mais sólidas com as famílias (Rawlings et al., 2020).
O que aquele ano me ensinou, no fundo, é que identidade profissional não é vaidade, é fundação. Sem saber quem você é e o que você faz, você não consegue cobrar com coerência, se comunicar com clareza nem construir um negócio que dure.
De MEI a mais de 100 pessoas: o que a escala ensina
A Humanize Care cresceu. Não de uma vez, não sem tropeços, não sem decisões que hoje eu faria diferente. Saímos de MEI para microempresa, depois para o porte que temos hoje, mais de cem colaboradores, mais de trinta famílias atendidas simultaneamente, mais de mil famílias acompanhadas desde a inauguração.
Mas o número que mais me importa não é esse. É outro: a essência do cuidado se manteve. E mantê-la enquanto a empresa crescia foi o desafio mais difícil e mais valioso da minha trajetória como gestora. Foram anos nos apoiando uma na outra, duas mulheres fortes e inteligentes, buscando conhecimento empresarial para manter este negócio vivo.
Porque a escala testa tudo. Testa seus processos, sua comunicação, sua capacidade de liderar sem estar em tudo ao mesmo tempo. Testa se você construiu uma empresa ou construiu uma dependência de si mesma. E testa, acima de tudo, se você sabe separar o que é inegociável, a qualidade e a ética do cuidado, do que pode e deve ser delegado, sistematizado, organizado.
Estudos sobre empreendedorismo em saúde mostram que profissionais que conseguem articular claramente seu propósito e construir sistemas de suporte ao redor dele têm maior capacidade de escalar sem perder a qualidade percebida pelos clientes (Nambinga et al., 2024; Rawlings et al., 2021). Não é teoria. É o que vivi.
Crescer sem perder a essência é possível. Mas exige que a essência esteja nomeada antes de qualquer crescimento começar.
O que virou método — e por que criei
Quando comecei a ser procurada por doulas da morte que tinham se formado através do Amortser e principalmente indicações da minha sócia Tatiana, sempre era a mesma dor, por onde começar, mas não conseguiam atuar, não por falta de competência, mas por falta de estrutura, entendi que o que eu havia aprendido na prática precisava ser organizado e compartilhado.
Não existia, no Brasil, nenhuma referência de como empreender especificamente no campo da doulagem da morte. Nos Estados Unidos, o que existe são checklists básicos, site, contrato, preço, Instagram (INELDA, 2025). Nada que abordasse a dimensão emocional de cobrar por cuidado, a culpa que aparece quando se tenta transformar chamado em sustento, a confusão de identidade que surge quando uma doula tenta se posicionar num mercado que ainda não sabe o que ela faz.
Foi da junção de dez anos de prática com a Humanize Care e da observação direta dessas profissionais, bem como minhas dificuldades na inserção deste trabalho, que nasceu o Método Do Chamado à Sobrevivência, aliado ao Método 3E®, que eu já aplicava na gestão da empresa. Não é um método importado. Não é teórico. É o destilado de tudo que funcionou, tudo que quebrou e tudo que aprendi reconstruindo.
Os cinco pilares que estruturam o método
1. Propósito nomeado
O chamado é real. Mas chamado sem nome vira sacrifício. A primeira responsabilidade de quem cuida é nomear o que faz, sem romantismo e sem culpa. Quando uma doula consegue dizer com precisão o que entrega, para quem, e qual é o valor concreto disso, ela para de se defender e começa a se posicionar. Isso muda tudo: a comunicação, a cobrança, a relação com o cliente, a percepção de si mesma como profissional.
2. Estrutura como ato de amor
Quem não organiza o negócio eventualmente adoece no cuidado. Vi isso acontecer, comigo e com outras. Estrutura não mata o sagrado: protege quem cuida de se perder no caminho. Definir serviços, estabelecer limites, criar processos de atendimento, organizar o financeiro, isso não é burocracia. É o que permite que o cuidado continue existindo amanhã.
3. Dinheiro como ferramenta do cuidado
A culpa ao cobrar é o maior inimigo de quem trabalha com propósito. E ela é ensinada, pela cultura, pela formação em saúde, pela ideia de que cuidado e dinheiro não combinam. Cobrar não é trair o chamado: é o que permite que ele continue existindo. Uma doula que não sustenta seu trabalho financeiramente para de atuar. E quando para, quem perde são as famílias que precisariam dela.
4. Presença como método
Autenticidade não é mostrar tudo. É mostrar o que é verdadeiro. E o verdadeiro, para quem trabalha com fim de vida, é que não existe separação entre o que você vive e o que você ensina. A presença que você oferece ao paciente é a mesma que você precisa oferecer na sua comunicação, no seu posicionamento, no contato com quem está considerando contratar você. Método sem presença vira fórmula vazia.
5. Mortes simbólicas como eixo
Você acompanha mortes físicas. Mas sabe que precisa olhar para suas mortes simbólicas para conseguir lidar com a demanda energética que é doular alguém. Afinal você acompanha o paciente cria vínculo, com criar seu ritual de despedida ao presenciar pequenas despedidas em suas atuações de trabalho. Reconhecer esse paralelo amplia o alcance do trabalho sem diluir quem você é.
Para quem esse método foi criado
Para doulas da morte que se formaram e não sabem como começar. Não sabem como cobrar com ética e sensibilidade. Para profissionais de saúde que sentem que o sistema não comporta o cuidado que querem oferecer e estão pensando em criar algo próprio ou até mesmo quer trazer o olhar da doulagem associando a sua atual profissão. Para quem já atua mas está exausta, porque está cuidando de todo mundo menos de si mesma e do próprio negócio.
O campo do empreendedorismo em saúde ainda tem pouca produção sobre como profissionais de cuidado constroem negócios sustentáveis sem abrir mão da ética e da essência. O que existe na literatura aponta para uma lacuna real: há formação técnica, mas quase nenhuma formação para o empreendedorismo no cuidado (Nambinga et al., 2024). É exatamente essa lacuna que o método preenche.
Propósito precisa de estrutura para sobreviver. E estrutura sem propósito não tem alma. O método existe para quem recusa escolher entre os dois.
Uma última coisa
Tudo que ensino no método foi vivido antes de ser ensinado. Os erros de gestão que cometi na Humanize Care. As noites resolvendo problema administrativo enquanto deveria estar cuidando de mim. A vergonha de cobrar no começo. A sensação de que estava traindo o cuidado toda vez que falava em dinheiro. E o momento, anos depois, em que entendi que sustentar o trabalho era parte do cuidado, não o oposto dele.
Não ensino atalhos. Ensino o caminho que percorri, com mais clareza do que tive quando o percorri pela primeira vez.
Se você quer entender como o Método Do Chamado à Sobrevivência funciona na prática, como se estrutura seu trabalho com essência e o que é possível construir a partir daqui, acompanha este blog. Vou continuar escrevendo sobre isso aqui, com a mesma honestidade com que escrevi este artigo.
Sobre a autora
Jamile Soares é enfermeira, Doula da Morte, pós-graduada em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Terapias Integrativas, Coaching e Carreira com ênfase em Empreendedorismo, cofundadora e CEO da Humanize Care. Criadora do Método 3E® e do Método Do Chamado à Sobrevivência.
→ Quer saber mais sobre a mentoria? Acesse aqui.
REFERÊNCIAS
INELDA — International End-of-Life Doula Association. Resources for End-of-Life Doulas. Disponível em: https://www.inelda.org. Acesso em: fev. 2026.
NAMBINGA, M. et al. Nurse entrepreneurship: a concept analysis. Journal of Advanced Nursing, v. 80, n. 3, p. 934–945, 2024. DOI: https://doi.org/10.1111/jan.15896
RAWLINGS, D. et al. The voices of death doulas about their role in end-of-life care. Health & Social Care in the Community, v. 28, n. 1, p. 12–21, 2020. DOI: https://doi.org/10.1111/hsc.12833
RAWLINGS, D. et al. Compassionate communities — What does this mean for roles such as a death doula in end-of-life care? Public Health, v. 194, p. 167–169, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.puhe.2021.02.038
RAWLINGS, D. et al. Death doula working practices and models of care: the views of death doula training organizations. BMC Palliative Care, v. 22, n. 78, 2023. DOI: https://doi.org/10.1186/s12904-023-01200-w
YOONG, S. Q. et al. Death doulas as supportive companions in end-of-life care: A scoping review. Palliative Medicine, v. 36, n. 5, p. 795–809, 2022. DOI: https://doi.org/10.1177/02692163221080659



