O que é uma Doula da Morte — e por que esse cuidado sempre existiu

Uma profissional que acompanha o processo de morrer com presença, escuta e cuidado não clínico. Entenda o que ela faz, de onde vem essa prática e por que ela faz diferença para quem está morrendo e para quem fica.

Quando comecei a atuar como doula da morte, em 2018, precisava explicar o que eu fazia para quase todas as pessoas que encontrava, inclusive colegas de saúde. Hoje, sete anos depois, ainda preciso. E não encaro isso como um problema. Encaro como um sinal de que estamos construindo algo novo num terreno que, por muito tempo, foi ocupado pelo silêncio.

A morte foi expulsa da vida cotidiana. Não de uma hora para outra, foi um processo lento, que aconteceu ao longo do século XX, quando a medicina foi assumindo um papel cada vez maior na condução dos momentos finais e as famílias foram sendo afastadas desse processo. O que antes era vivido em casa, em comunidade, com rituais e com presença, passou a acontecer nos corredores de hospitais, entre protocolos e equipamentos.

Não estou aqui para julgar esse caminho. A medicina salvou e salva vidas. Mas ela também criou um vazio. Um espaço que não é clínico, que não cabe em prescrição, que nenhuma equipe de plantão consegue preencher dentro da sua função. É o espaço da presença humana, da escuta que não tem pressa, da mão que fica segurando mesmo quando não há mais nada a fazer clinicamente.

É esse o espaço onde eu trabalho.

O que é uma Doula da Morte?

Doula da morte é uma profissional que oferece acompanhamento não clínico à pessoa em processo de morrer e à sua família. Ela não é médica, não é enfermeira, não substitui nenhuma equipe de saúde. O que ela oferece é algo diferente: presença contínua, escuta ativa, suporte emocional e espiritual, criação de rituais de despedida e orientação prática sobre o processo de morrer.

A palavra ‘doula’ vem do grego e significa, aproximadamente, ‘mulher que serve’ ou ‘mulher cuidadora’. Historicamente usada para descrever quem apoiava as mulheres durante o parto, o termo se expandiu a partir dos anos 1990 para o campo do fim da vida, quando pesquisadores e profissionais perceberam que o nascimento e a morte partilham algo em comum: são passagens que se tornam mais humanas quando existe presença qualificada ao lado (Rawlings et al., 2019).

No Brasil, o campo ainda é novo. Pesquisas recentes mostram que a profissão segue desconhecida por grande parte da população e por muitos profissionais de saúde (Corrêa, 2025). Mas ela existe, tem base científica crescente, e responde a uma demanda que não vai diminuir conforme a população envelhece.

A doula da morte não compete com a medicina, ela preenche o espaço que a medicina, por definição, não ocupa: o espaço humano, relacional e simbólico do processo de morrer.

O que a Doula da Morte faz na prática?

Essa é a pergunta que mais recebo e é a mais importante de responder com clareza. O trabalho da doula da morte se organiza em cinco dimensões:

Cuidado físico não clínico

Massagens e técnicas de conforto, auxílio nos cuidados corporais, presença contínua à beira do leito, inclusive vigílias de 24 horas nos dias finais, quando a família precisa descansar e o processo pede presença plena.

Suporte emocional e psíquico

Presença compassiva sem pressa. Escuta ativa que não tenta resolver nem consertar apenas acolhe. Apoio à criação de projetos significativos: cartas, biografias, livros de receitas, vídeos de memória. Trabalho de legado. Suporte ao luto da família antes e depois da morte.

Apoio social e prático

Acompanhamento em consultas médicas, como defensora da voz do paciente dentro do sistema. Auxílio na elaboração de testamento vital e diretivas antecipadas de vontade. Orientação para a família sobre o que esperar fisicamente à medida que a morte se aproxima, porque o desconhecido assusta muito mais do que a realidade nomeada.

Suporte espiritual

Apoio respeitoso à tradição e à crença de cada pessoa e família, sem impor nada. Meditação guiada, oração, práticas integrativas quando bem-vindas. Suporte à resolução de pendências,  as despedidas não ditas, os perdões não pedidos, os assuntos que precisam ser fechados antes do fim.

Educação e informação

Orientar a família sobre o processo fisiológico da morte transforma a experiência. Saber o que é normal, o que esperar, o que significa cada sinal do corpo,  isso devolve às famílias a sensação de controle e presença que o sistema hospitalar muitas vezes retira.

O que a Doula da Morte NÃO faz

É tão importante quanto saber o que ela faz. A doula da morte não administra medicamentos. Não monitora sinais vitais. Não toma decisões clínicas ou éticas pelo paciente ou pela família. Não substitui médicos, enfermeiros, psicólogos ou assistentes sociais e qualquer outro profissional. Não impõe crenças, valores ou julgamentos sobre como morrer.

Ela também não é cuidadora domiciliar no sentido técnico do termo, não realiza procedimentos de enfermagem. O seu lugar é outro: é o lugar do cuidado que não tem código de procedimento, que não aparece em prontuário, mas que faz toda a diferença para quem está vivendo esse momento. Claro que, assim como eu que sou bacharel em enfermagem pude atuar simultaneamente nas duas frentes de necessidade humana.

De onde vem esse cuidado? Um pouco de história

Esse cuidado não é uma invenção moderna. É um resgate. Assim como coloquei em minha rede social, é um ato de resistência. Durante séculos, eram as mulheres mais velhas da comunidade que sabiam o que fazer quando alguém estava morrendo. Esse saber era transmitido de geração em geração não em livros, mas em presença. Com a medicalização progressiva do século XX, esse tecido comunitário foi se desfazendo. As famílias chegaram ao século XXI sem referência de como acompanhar a morte de quem amam (Meadow, 2015; Brandão, 2020).

Nos anos 1990, o movimento das doulas do nascimento já havia demonstrado algo importante: presença humana qualificada tem resultado mensurável. Uma revisão da Cochrane mostrou que o suporte contínuo de doulas durante o parto reduz intervenções desnecessárias, encurta o trabalho de parto e aumenta a satisfação das mulheres (Bohren et al., 2017). Se funciona no nascimento, por que não no fim da vida?

Foi a partir dessa pergunta que nasceu, formalmente, a figura da Doula da Morte. Nos Estados Unidos, o primeiro programa estruturado foi criado em 2003. Na América Latina, o campo começou a ganhar forma a partir de 2008. No Brasil, 2018 foi o ano do primeiro programa formal de formação de doulas da morte  e desde então o campo cresceu, ganhou produção científica e começa a chegar ao conhecimento público (Agra et al., 2023; Corrêa, 2025).

Perguntas frequentes sobre a Doula da Morte

A Doula da Morte substitui os cuidados paliativos?

Não. Cuidados paliativos são uma especialidade médica com equipe multiprofissional, prescrições e protocolos clínicos. A doula da morte atua de forma complementar, ela preenche o espaço que a equipe de paliativos, por definição e carga de trabalho, não consegue cobrir. Idealmente, as duas atuações coexistem.

A profissão é regulamentada no Brasil?

Ainda não. A doula da morte não tem regulamentação oficial no Brasil, o que não significa que a atuação seja ilegal, mas que não há um conselho profissional específico nem piso salarial definido. Embora a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 3221-35, reconheça a ocupação de doula, essa descrição restringe-se ao acompanhamento de gestantes, parturientes e puérperas, não contemplando a atuação no contexto de fim de vida. O campo está em construção, e há movimentos ativos para sua regulamentação.

Qualquer pessoa pode contratar uma doula da morte?

Sim. O acompanhamento pode ser contratado pela própria pessoa que está morrendo, por familiares ou por cuidadores. Não é necessário diagnóstico específico,  a doula pode ser chamada em qualquer fase do processo de fim de vida, ou a partir de um diagnóstico de uma doença ameaçadora da vida.

A doula da morte atua em hospital ou só em casa?

Ela pode atuar em qualquer ambiente: domicílio, hospital, casa de repouso, ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos) ou hospice. O ambiente depende de onde o paciente está e do que a família precisa. Parte do trabalho pode também ser feito de forma remota, orientação, suporte emocional à distância, planejamento.

A doula da morte trabalha com alguma religião específica?

Não. O trabalho é radicalmente respeitoso à tradição de cada família. Isso significa que a doula não impõe nem sugere crenças, ela adapta o suporte espiritual ao que a pessoa e a família acreditam, sejam quais forem.

Quanto custa uma doula da morte?

Como a profissão ainda não é regulamentada, não existe tabela oficial. Este campo esta em construção, e os valores podem variar conforme a formação da profissional, a complexidade do caso e se inclui serviços complementares como associação de profissões. Cada profissional define sua tabela de acordo com sua experiência e estrutura de trabalho e pesquisa de campo.

Como encontrar uma doula da morte no Brasil?

A forma mais direta é buscar profissionais formadas por cursos reconhecidos, existem programas de formação com estágio prático e certificação em diferentes estados. Indicações de médicos paliativistas, oncologistas e assistentes sociais são também um caminho frequente. Redes sociais e grupos de cuidados paliativos têm conectado famílias a doulas em todo o país.

O que a pesquisa mostra sobre o impacto dessa presença

Estudos conduzidos em diferentes países são consistentes em algo: famílias acompanhadas por doulas da morte relatam maior sensação de segurança, despedidas mais significativas e um processo de luto positivamente influenciado pela presença contínua (Rawlings et al., 2023; Agra et al., 2025).

Do ponto de vista do sistema de saúde, a presença de doulas está associada à redução de internações desnecessárias, diminuição do tempo de manejo de recursos técnicos pelas equipes de cuidados paliativos e aumento da chance de que o paciente morra onde deseja, em casa, na maioria dos casos (Bohren et al., 2017; Krawczyk; Rush, 2020).

Isso mostra que esse não é um cuidado de nicho. É um cuidado que faz sentido para o sistema como um todo e que responde a uma demanda real e crescente.

Famílias que passaram pelo acompanhamento de uma doula da morte tornaram-se agentes de disseminação de empatia, compartilhando o que aprenderam e ajudando outras pessoas em situações semelhantes. (Rawlings et al., 2023)

Por que escrevo sobre isso

Escrevi este artigo para quem chegou aqui sem saber bem o que era uma doula da morte. Para a filha que está cuidando de um pai com diagnóstico terminal e não sabe o que fazer com as próprias mãos. Para a enfermeira que sente que o sistema não dá ao paciente tudo o que ele precisa. Para quem já perdeu alguém e fica pensando se poderia ter sido diferente.

Poderia. Não porque faltou amor, amor quase sempre tem. Mas porque faltou estrutura, conhecimento e presença treinada para transformar esse amor em cuidado concreto.

É isso que faço. É isso que ensino. E é por isso que continuo aqui, escrevendo e atuando num campo que ainda está sendo construído, e que faz falta há mais tempo do que imaginamos.

Sobre a autora

Jamile Soares é enfermeira, Doula da Morte, pós-graduada em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Terapias Integrativas, Coaching e Carreira com ênfase em Empreendedorismo, cofundadora e CEO da Humanize Care. Criadora do Método 3E® e do Método Do Chamado à Sobrevivência.

→ Quer saber sobre a mentoria para doulas da morte? Acesse aqui.

REFERÊNCIAS

AGRA, G. et al. Doulas da morte: uma revisão de escopo. Revista Cuidarte, v. 14, n.3, set./dez. 2023. DOI: http://dx.doi.org/10.15649/cuidarte.2876

AGRA, G. Sobre-viver: experiências de familiares enlutados sobre a presença e acompanhamento de doulas da morte a seus entes queridos. Observatório de la Economía Latinoamericana, v. 23, n. 11, e12278, 2025. DOI: https://doi.org/10.55905/oelv23n11-110

BOHREN, M. A. et al. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2017. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.cd003766.pub6

BRANDÃO, L. C. dos S. A atuação das doulas na percepção das mulheres paridas. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2020.

CORRÊA, L. P. Doulas da morte no contexto das Políticas Públicas de Cuidados Paliativos. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2025.

KRAWCZYK, M.; RUSH, M. Describing the end-of-life doula role and practices of care: perspectives from four countries. Palliat Care Soc Pract, v. 14, 2020. DOI: https://doi.org/10.1177/2632352420973226

MEADOW, S. L. Defining the doula’s role: fostering relational autonomy. Health Expect, v. 18, n. 6, p. 3057-3068, 2015. DOI: https://doi.org/10.1111/hex.12290

RAWLINGS, D. et al. What role do Death Doulas play in end-of-life care? A systematic review. Health & Social Care in the Community, v. 27, n. 3, p. e82-e94, 2019. DOI: https://doi.org/10.1111/hsc.12660

RAWLINGS, D. et al. Experiences of engaging a death doula: qualitative interviews with bereaved family members. Palliat Care Soc Pract, v. 17, 2023. DOI: https://doi.org/10.1177/26323524231207112

YOONG, S. Q. et al. Death doulas as supportive companions in end-of-life care: A scoping review. Palliative Medicine, v. 36, n. 5, p. 795-809, 2022. DOI: https://doi.org/10.1177/02692163221080659

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