O Brasil está envelhecendo. Mas ainda não aprendeu a morrer.

Somos o 6º país com mais idosos no mundo,  e um dos piores para se morrer. Essa conta não fecha. E em 2030, quando formos ainda mais velhos e ainda menos preparados, o sistema vai cobrar o preço.

Existe uma frase que eu repito há anos, nas consultas, nos congressos, nas formações e que ainda provoca desconforto quando dita em voz alta:

“O Brasil é um dos países que mais envelhece no mundo, e um dos piores para se morrer. ESSA MATEMÁTICA NÃO BATE.”

Não é retórica. É dado. E é um dado que deveria estar incomodando muito mais gente do que incomoda.

Estamos vivendo mais. Isso é uma conquista real, resultado de décadas de avanço em saneamento, medicina e qualidade de vida. Mas viver mais não é o mesmo que envelhecer bem. E envelhecer bem não é o mesmo que morrer com dignidade. São três processos distintos, e o Brasil acertou no primeiro, está tropeçando no segundo e está falhando gravemente no terceiro.

Este texto é o meu ponto de vista. É também um convite à reflexão,  sobre o que estamos construindo coletivamente para os nossos idosos, e sobre o que estamos construindo para nós mesmos, que um dia também seremos eles.

Os números que ninguém quer olhar de frente

Em 2025, o Brasil ocupa o 6º lugar no ranking mundial de países com maior número de idosos,  aproximadamente 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (Ministério da Saúde, 2025). Em 2030, passaremos a ser país idoso por definição demográfica: mais de 14% da população acima de 60 anos. Em 2050, a projeção é que 30% dos brasileiros tenham mais de 65 anos (IBGE; ONU, 2022).

Agora o outro lado da conta.

No Quality of Death Index,  o ranking internacional que mede a qualidade dos cuidados no fim da vida, publicado pela Economist Intelligence Unit,  o Brasil ficou em 42º lugar entre 80 países avaliados em 2015. Já ficamos atrás de Uganda, Equador e Malásia. Em 2022, num estudo publicado no Journal of Pain and Symptom Management que avaliou 81 países, o Brasil ficou em penúltimo lugar. Penúltimo. Num mundo de 81 países avaliados.

6º  lugar no mundo em número de idosos (2025)

2030  ano em que o Brasil será oficialmente um país idoso

80º / 81  posição no ranking de qualidade de morte (2022)

< 8%  dos brasileiros que precisam de cuidados paliativos têm acesso a eles

Isso é o que eu chamo de matemática que não bate. Como pode um país que lidera o ranking do envelhecimento estar quase no fim da lista de como trata quem está morrendo?

“Somos ótimos em fazer as pessoas viverem mais. Mas nem bom assim em pensar na qualidade deste envelhecimento,  especialmente no fim.”

Por que isso acontece — e por que vai piorar antes de melhorar

Parte da resposta está na velocidade. O Brasil não envelheceu devagar, como os países europeus que tiveram décadas para construir infraestrutura de cuidado. A nossa transição demográfica aconteceu em tempo acelerado, e as políticas públicas, os sistemas de saúde e a cultura não acompanharam esse ritmo.

A França levou 115 anos para dobrar a proporção de idosos de 7% para 14% da população. O Brasil fez o mesmo em menos de 25 anos. Não temos o equivalente em serviços, em profissionais formados, em leitos de cuidados paliativos, em cobertura de home care, em educação para a morte,  nada que corresponda à escala do envelhecimento que já está acontecendo (OMS; OCDE, 2024).

E isso tem consequências concretas, imediatas, que qualquer profissional de saúde já está sentindo no campo. Os hospitais não conseguem absorver a demanda de uma população que envelhece com doenças crônicas complexas. Os planos de saúde estão começando a sentir o peso de uma carteira de beneficiários cada vez mais velha, com cada vez mais solicitações de home care, internação domiciliar e cuidados de longa duração. A lógica do sistema,  construída para curar,  não foi feita para cuidar. E cuidar é o que a velhice pede.

Não é alarmismo. É matemática. Quando em 2030 o Brasil tiver mais idosos do que jovens em determinadas faixas etárias, e quando esses idosos começarem a precisar de cuidado intensivo e contínuo, o sistema vai cobrar o que não foi construído. E quem vai pagar são as famílias, como sempre, que vão se virar sozinhas, sem apoio, sem orientação, sem estrutura.

O que existe — e o enorme buraco que ainda precisa ser preenchido

Não é justo dizer que nada está sendo feito. Em 2018, o SUS publicou diretrizes para organização dos cuidados paliativos. Em 2023, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Cuidados Paliativos. O movimento das doulas da morte ganhou reconhecimento acadêmico, produção científica crescente e presença em congressos nacionais e internacionais. Há médicos, enfermeiros e assistentes sociais comprometidos com esse campo construindo serviços sérios espalhados pelo país.

Mas o acesso é concentrado. A maior parte dos serviços de cuidados paliativos está no Sudeste. A formação em cuidados no fim da vida raramente integra as grades curriculares da saúde. O consumo de opioides para controle de dor,  um dos indicadores mais objetivos da qualidade de cuidado paliativo,  ainda está na casa das centenas de doses por milhão de habitantes por dia, quando países desenvolvidos operam na casa dos milhares. O despreparo não é só estrutural: é cultural.

A morte ainda é tabu. Médicos formados sem nenhuma disciplina sobre finitude. Famílias que chegam ao leito de morte sem saber o que esperar, o que fazer, como estar. Um sistema que trata a morte como falha,  e não como parte inevitável e digna de viver.

“O problema não é só a falta de estrutura. É que ainda não decidimos, como sociedade, que morrer bem é uma prioridade. Que tem valor. Que merece investimento.”

O colapso que está chegando — e que ainda dá para mitigar

Quando falo em colapso, não estou usando a palavra para assustar. Estou usando porque é tecnicamente precisa. Um sistema de saúde construído sobre o modelo hospitalocêntrico, onde o hospital é o centro de toda atenção,  não aguenta uma população em que 30% tem mais de 65 anos e precisa de cuidado contínuo, humanizado e domiciliar.

Os planos de saúde já estão sentindo. O crescimento nas solicitações de home care é real e acelerado e vejo isso todos os dias nas solicitações de pacientes judicializados que recebo no Home Care, estou falando de mais de 20 solicitações ao dia, multiplique isso no mês. Os hospitais de retaguarda estão saturados. As ILPIs, Instituições de Longa Permanência para Idosos, não têm capacidade para absorver a demanda que se aproxima e como fica quem não tem acesso ao cuidado privado. E o cuidador informal, cursos de cuidadores saindo pela janela, formando profissionais sem nenhuma estrutura básica para o cuidado com o ser humano em seu processo de envelhecimento.

O que mitiga esse colapso não é só tecnologia ou investimento público, embora ambos sejam necessários. O que mitiga é educação. É cultura. É uma população que começa a planejar o próprio envelhecimento antes de precisar dele. Que entende o que é um testamento vital e faz o seu. Que conversa com a família sobre como quer ser cuidada. Que inclui no planejamento financeiro o custo do cuidado na velhice.

O meu papel. E o seu.

Trabalho com fim de vida há dez anos. Acompanhei mais de mil famílias,  e cada uma delas me ensinou algo sobre o que falta. Não é só o sistema que falha. Somos nós, como sociedade, que ainda não decidimos que envelhecer e morrer fazem parte da vida, e que, portanto, merecem planejamento, conversa e cuidado.

Então deixa eu ser direta sobre o que acredito ser responsabilidade de cada um de nós:

Cuidar do seu hoje para ter um amanhã com mais autonomia. Alimentação, movimento, vínculos, propósito,  não é sobre viver para sempre, é sobre chegar na velhice com menos dependência e mais escolha.

Planejar o próprio envelhecimento. Conhecer o que é um testamento vital e diretivas de vontade, gerenciar seu financeiro atual para seu futuro. Conversar com sua família sobre como você quer ser cuidado se não puder decidir sozinho. Isso não é mórbido, é responsabilidade.

Olhar para as pessoas idosas ao seu redor. A solidão é a epidemia silenciosa do envelhecimento. Um vizinho, um familiar, alguém da comunidade,  presença não exige formação, exige intenção.

Cobrar das políticas públicas. Envelhecimento é pauta de saúde, de previdência, de urbanismo, de educação. É transversal. Não deveria ser uma discussão de especialistas, deveria estar na mesa de todos.

“Não consigo cuidar de quem morre sem pensar em como estou vivendo. E não consigo ver esse dado do Brasil sem sentir que tenho uma responsabilidade,  não só profissional, mas humana,  de continuar falando sobre isso.”

A matemática que não bate hoje vai cobrar um preço amanhã. E esse preço vai ser pago em sofrimento evitável, em mortes sem dignidade, em famílias sem suporte, em um sistema que entrou em colapso porque nunca foi construído para o que mais importa: cuidar bem de quem está chegando ao fim.

Ainda dá para mudar essa conta. Mas o tempo que temos para isso é agora.

Sobre a autora

Jamile Soares é enfermeira, pós-graduada em Gerontologia, Cuidados Paliativos, Tanatologia e Terapias Integrativas. Doula da Morte desde 2018 e cofundadora da Humanize Care — empresa com mais de dez anos de atuação e mais de mil famílias atendidas no cuidado domiciliar e no fim de vida. Criadora do Método 3E® e do Método Do Chamado à Sobrevivência.

→ Quer entender mais sobre o cuidado no fim da vida? Leia: O que é uma Doula da Morte.

FONTES E REFERÊNCIAS

ECONOMIST INTELLIGENCE UNIT (EIU). The 2015 Quality of Death Index: Ranking palliative care across the world. Londres: The Economist Intelligence Unit, 2015. Disponível em: https://eapcnet.wordpress.com/2015/10/08/updated-quality-of-death-index-published

FINKELSTEIN, E. A. et al. Cross-Country Comparison of Expert Assessments of the Quality of Death and Dying 2021. Journal of Pain and Symptom Management, v. 63, n. 4, p. e419-e429, abr. 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jpainsymman.2021.12.015

IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeções da população do Brasil e das Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política Nacional de Cuidados Paliativos. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

NAÇÕES UNIDAS. World Population Ageing 2022: Highlights. Nova York: ONU/DESA, 2022. Disponível em: https://www.un.org/development/desa/pd/sites/www.un.org.development.desa.pd/files/undesa_pd-2022_wpa-highlights.pdf

OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Health at a Glance 2023: OECD Indicators. Paris: OECD Publishing, 2023. DOI: https://doi.org/10.1787/7a7afb35-en

OMS — Organização Mundial da Saúde. Ageing and health. Genebra: WHO, 2022. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ageing-and-health

PORTAL DO ENVELHECIMENTO. Os 12 países com maior quantidade de idosos no século XXI. 2024. Disponível em: https://portaldoenvelhecimento.com.br/os-12-paises-com-maior-quantidade-de-idosos-no-seculo-xxi

UNFPA BRASIL. Envelhecimento populacional. Disponível em: https://brazil.unfpa.org/pt-br/topics/envelhecimento-populacional. Acesso em: fev. 2026.

CORRÊA, L. P. Doulas da morte no contexto das Políticas Públicas de Cuidados Paliativos. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2025.

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